Crianças pagam o preço mais alto no atual surto de Ebola no Congo
Rio de Janeiro, 15/10/2026

(divulgação/MSF)
As crianças estão pagando um preço devastador no atual surto da doença do Ebola no nordeste da República Democrática do Congo (RDC). Elas enfrentam maior risco de morte do que os adultos, e também são uma parcela significativa dos casos registrados nesta epidemia. De acordo com o Epicentre, centro de pesquisa epidemiológica de Médicos Sem Fronteiras (MSF), quase um em cada quatro casos confirmados de Ebola em Kivu do Norte afeta uma criança. MSF está profundamente preocupada com o impacto desproporcional da doença sobre as crianças e pede maior atenção às suas vulnerabilidades específicas, tanto na resposta médica quanto na pesquisa.
Embora o Ebola continue sendo uma doença mortal em todas as faixas etárias, as crianças mais novas enfrentam maiores risco de morrer. No Kivu do Norte, elas têm sido particularmente afetadas pelo atual surto: 24% dos casos confirmados foram registrados em menores de cinco anos, em comparação com 13% em Ituri. Entre bebês com menos de um ano, a diferença também é significativa: eles representam 13% dos casos em Kivu do Norte, contra 6% em Ituri.
No Centro de Tratamento de Ebola (CTE) de Butembo, no Kivu do Norte, as equipes de MSF observaram uma taxa de letalidade especialmente alta entre crianças. Entre junho e setembro de 2026, 24 das 30 crianças atendidas na unidade, a maioria com menos de cinco anos, morreram em decorrência do vírus Bundibugyo que provoca a doença do Ebola. A rápida progressão da doença nas comunidades e o acesso limitado a cuidados especializados nas unidades de saúde contribuem para esses índices alarmantes de mortalidade.
“Os serviços de atenção primária frequentemente não dispõem da experiência, dos equipamentos e das medidas de prevenção e controle de infecções especializados que são necessários para identificar e tratar com segurança os casos suspeitos”, explica Stéphanie Hoffmann, coordenadora do projeto de MSF em Butembo. “A maioria dos casos pediátricos admitidos em nosso ETC em Butembo, no Kivu do Norte, já haviam sido hospitalizados por outras doenças em diferentes unidades de saúde nos dias ou semanas anteriores à admissão. Seus familiares não tinham Ebola, e é altamente provável que essas crianças tenham contraído a doença dentro das instalações de saúde."
O fortalecimento das medidas de prevenção e controle de infecções (IPC), a garantia da disponibilidade de equipamentos de proteção individual (EPIs) e o reforço do treinamento dos profissionais de saúde em centros não especializados em Ebola — localizados em áreas de risco — são fundamentais para manter serviços médicos essenciais e evitar a transmissão da doença no ambiente de assistência à saúde.
Embora tenham sido feitos esforços para reduzir o impacto emocional do isolamento sobre crianças internadas em centros de tratamento, incluindo a criação de áreas onde pais e responsáveis podem ver e se comunicar com seus filhos hospitalizados, a permanência nessas unidades continua sendo uma experiência profundamente angustiante para muitos pacientes. Muitas crianças são pequenas demais para compreender o que está acontecendo ou para atender sozinhas às próprias necessidades básicas.
Para ajudar a enfrentar essa realidade, MSF recrutou e treinou cuidadores que oferecem apoio diário e conforto às crianças em diversos Centros de Tratamento de Ebola apoiados pela organização, sempre utilizando equipamentos completos de proteção individual. Esses cuidadores têm perfis variados, entre eles sobreviventes do Ebola. Atualmente, 13 cuidadores prestam assistência a crianças no Centro de Tratamento de Ebola de Kitatumba, em Butembo. Embora esteja longe de ser uma solução ideal, a iniciativa garante um contato humano essencial e oferece apoio emocional às crianças afetadas pelo surto.
"Além dos enormes desafios no cuidado a pacientes jovens, as unidades de saúde enfrentam a falta de orientações sobre dosagens pediátricas e a disponibilidade limitada de formulações adequadas para crianças no caso de medicamentos em fase de estudo. Uma abordagem centrada na criança deve estar no centro da assistência médica, do planejamento operacional e dos esforços de pesquisa", afirmou o Dr. Guyguy Manangama, epidemiologista e diretor-adjunto de operações da MSF.
As crianças têm sido afetadas de forma desproporcional pelo atual surto, mas continuam ficando para trás no acesso a ferramentas médicas inovadoras. Historicamente, elas costumam ser excluídas de pesquisas clínicas ou incluídas apenas após longos atrasos, o que cria lacunas perigosas tanto na produção de evidências científicas quanto no acesso a intervenções capazes de salvar vidas.
“Tratamentos, vacinas e outras ferramentas de prevenção devem ser avaliados para uso em crianças desde o início das pesquisas e disponibilizados a elas sem demora. No entanto, no surto atual, as crianças continuam sendo deixadas para trás, com acesso muito limitado a ensaios clínicos e campanhas de vacinação, bem como às mais recentes inovações terapêuticas, apesar de representarem uma parcela significativa dos casos da doença. As crianças não podem continuar esperando que dados sejam gerados em adultos antes de se beneficiarem dos avanços nos cuidados e na prevenção do Ebola”, acrescentou Dr. Guyguy Manangama.
MSF faz um apelo para que as autoridades nacionais, instituições de pesquisa, desenvolvedoras farmacêuticas e financiadores internacionais priorizarem a inclusão de crianças em todos os estudos atuais e futuros sobre o vírus Bundibugyo. Garantir acesso equitativo à pesquisa e a novas ferramentas médicas, incluindo vacinas, é essencial para reduzir mortes evitáveis e melhorar os resultados para um dos grupos mais vulneráveis da população.
O impacto do surto da doença do Ebola sobre as crianças vai além da própria infecção pelo vírus. Interrupções em serviços essenciais de saúde podem aumentar rapidamente os riscos relacionados a outras doenças preveníveis por vacinação, à desnutrição e a outras enfermidades comuns na infância. Por isso, preservar a imunização de rotina, os programas de nutrição e o acesso à atenção primária à saúde deve ser um componente central da resposta à epidemia, e não uma medida secundária.
Tratamento: Um estudo em andamento, o EBO-PEP, está avaliando um antiviral oral, o obeldesivir, para prevenir a infecção por Ebola após exposição de alto risco. Caso se prove eficaz, o tratamento poderá oferecer uma forma prática de proteger pessoas que tiveram contato recente com pacientes infectados. Embora esteja prevista a ampliação da elegibilidade do estudo para incluir algumas crianças, aquelas com menos de 20 quilos continuam excluídas porque ainda não existe uma formulação pediátrica adequada disponível.
Para as crianças mais novas, a alternativa atual envolve um tratamento intravenoso de 10 dias, uma abordagem especialmente difícil de implementar em contextos de surtos e que pode ser particularmente desafiadora para crianças pequenas e seus cuidadores.
Vacinação: Embora os resultados dos ensaios em andamento que avaliam vacinas desenvolvidas especificamente para o vírus Bundibugyo não sejam esperados antes de vários meses, a vacina ERVEBO® é uma opção disponível. Seu perfil de segurança está bem estabelecido, ela é aprovada para uso em crianças a partir de um ano de idade, e as autoridades de saúde da RDC têm ampla experiência em sua aplicação em contextos de surtos. Evidências emergentes também sugerem que ela pode oferecer algum nível de proteção contra o vírus Bundibugyo, embora o grau dessa proteção ainda precise ser esclarecido. Em áreas com alto risco de transmissão de Ebola, vacinar os contatos de casos confirmados, incluindo crianças com mais de um ano de idade, pode ajudar a prevenir casos graves da doença e salvar vidas.
Por Redação GBNEWS
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