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Ainda sobre “Guerreiros do Sol”

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Rio de Janeiro, 16/6/2026

Por Fernando Uchoa

Foto: Divulgação

E “Guerreiros do Sol” chegou ao fim.  Sucesso absoluto de audiência e crítica, o seriado da TV Globo, exibido em 2025 pela Globo Play Novelas, foi apresentado este ano desde 22 de abril de 20226, no horário das 22h, e sofreu cortes na TV aberta. Mesmo assim, bateu 31% do Ibope entre os televisores ligados.

 

A excelente trama roteirizada por George Moura e Sergio Goldenberg, baseada no livro do historiador Frederico Pernambucano de Melllo, conta em seu currículo, desde sua primeira edição, com diversos prêmios, nacionais e internacionais. Com direção geral de José Luiz Villamarin, o folhetim é um produto nobre da televisão brasileira, com autêntico sabor do drama e molho do melhor teatro universal.

 

O elenco contou com uma plêiade de artistas selecionados por sua imersão total no enredo, de uma dramaticidade épica mas natural, intérpretes da grande arte cênica. Muitos deles são originários do Nordeste, traquejados no linguajar caçange e sem ingresias do sertão nordestino. Outros são de regiões distintas, mas entregam a carga emocional necessária à trama, mas sem pastiche ou exageros. A paisagem circundante é autêntica, recheada de lajedos, facheiros, mandacarus e xique-xiques.

 

A novela revive a saga do cangaço, fenômeno social surgido nos anos 1920/30, como reação a questões sociais como a violência gerada pela grilagem de terras e exploração do trabalhador rural pelo coronelismo, em meio ao flagelo da seca e da fome. A atuação do cangaço se estendeu por quase todo os estados do Nordeste, tendo como refúgio e defesa, regiões semiáridas como o Raso da Catarina, na Bahia, e demais sertõe, até o Rio Grande do Norte.

 

A trama resgata, com adaptações, a história de Virgulino Ferreira, o Lampião, interpretado pelo excelente ator Thomás Aquino (no papel de Josué Alencar) e de sua companheira Maria Bonita, representada pela competente atriz paraibana Isadora Cruz (no papel de Rosa Pelegrinno), em um coprotagonismo envolvente. O seriado contou ainda com atores do quilate de Irandhir Santos (Arduíno), Marcélia Cartaxo (Dona Generosa), Alexandre Nero (Miguel Ignacio), José de Abreu (Coronel Eloi Bandeira), Daniel de Oliveira (Iládio Bandeira), Aline de Moraes (Jânia Bandeira), Alice Carvalho (Otília), profissionais veternos e figurantes que vestem figurinos de época reproduzidos com fidelidade, valorizando com seu talento, o melhor da arte cênica. O sertão, na trama, não é só um cenário. É mais um ator, orgânico, com vida pulsante e sensível às variações do roteiro, participando e desenvolvendo  a história de cada personagem, seja em cenas de violência, conflitos, ambições, traições, mas também em atitudes de lealdade, parceria e bondade, afirmando a ambiguidade do ser humano.

 

O amor se apresenta intenso, forte e diverso, em casos como o da cangaceira Otília e da feminista Jânia (que se torna prefeita de Santa Cruz, uma das principais cidades onde a história acontece), e dos cangaceiros Hildebrando Cheiroso (Rodrigo Garcia) e Zé do Bode (Kélner Macedo), e do padre Bida, o irmão mais novo de Josué (vivido por Rodrigo Lélis) com Valiana (vivida por Nathalia Dill).  Embora apresentado inicialmente (2025) em Tv a cabo (fechado) e reapresentado em película na TV aberta, a qualidade artística do seriado, aliado a toda uma produção de excelência e uma direção de primeira linha, sai da mesmice urbana, e não deixa nada a dever a produções cinematográficas e teledramaturgias anteriores com temas regionais, como “Morte e vida Severina”  (Prêmio Ondas,” da Espanha), Memorial de Maria Moura, O Tempo e o Vente, e demais épicos, passados na telona e na telinha.

 

Renovação do passado, sem didatismo, ou supremacia do entretenimento, best-seller, sem subterfúgios ou exagero de dramaticidade. Apenas e principalmente a boa arte, na medida certa, servindo-se dos elementos necessários à concretização de um verdadeiro clássico, de valores atemporais, com total brasilidade. Sem pasteurização, coisa rara na TV. Que venham mais produtos como esse, para alegrar, e, principalmente, educar de verdade, o nosso povo, já tão lesado em sua cultura e sua verdade histórica.


*     Fenando Uchôa é jornalista e escritor

 

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