Corredor migratório de baleias-jubartes no litoral carioca é alvo de cientistas

Rio de Janeiro, 21/7/2021

Por Rita Silva

Fotos: Liliane Lodi

A temporada de migração das baleias jubarte teve início com muitos registros de indivíduos no litoral carioca em meados de junho, incluindo as praias da zona sul. Mas, essa é apenas a ponta do iceberg: o verdadeiro corredor migratório, usado anualmente durante o inverno para alcançar os criadouros na região Nordeste do Brasil, ocorre em alto mar. É onde as jubartes adultas nadam em alta velocidade rumo ao nordeste do país, onde irão se reproduzir. Embora conhecido, esse corredor nunca foi estudado profundamente - e é exatamente esse o objetivo das pesquisas do Projeto Ilhas do Rio, conduzido pelo Instituto Mar Adentro - com a curadoria técnica do WWF-Brasil e patrocínio da Associação IEP e JGP.


"As baleias-jubartes mais jovens se aproximam mais da costa do Rio de Janeiro e, por isso, são as mais avistadas pelos banhistas, remadores e barcos de passeio. Mas, a grande maioria dos animais, especialmente as adultas, passam mais afastados do litoral, em alta velocidade e em "fila indiana" - um fenômeno que já foi observado, mas nunca explorado pela ciência", explica a Drª Liliane Lodi, bióloga do Projeto Ilhas do Rio e especialista em cetáceos. "Agora teremos a chance de registrar algo inédito", destaca. Para favorecer a investigação científica, os cruzeiros incluirão cinegrafista com drone para captura das imagens aéreas da migração das baleias, a partir do final de julho.

Há tempos que os pesquisadores monitoram os padrões de ocorrência, distribuição, comportamento e movimentos dos cetáceos. O estudo, em andamento, já registrou a ocorrência de seis espécies de cetáceos: baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae); baleia-de-bryde (Balaenoptera brydei); baleia-franca-austral (Eubalaena australis); orca (Orcinus orca); golfinho-de-dentes-rugosos (Steno bredanensis); e o golfinho -nariz-de-garrafa-comum (Tursiops truncatus).


Todas essas espécies estão no litoral carioca, mais especificamente na unidade de conservação federal, Monumento Natural das Ilhas Cagarras (MONA Cagarras) e na área compreendida entre a barra da Baía de Guanabara, praias da zona sul, ilhas e adjacentes. Esta região é reconhecida pela aliança internacional Mission Blue como um Hope Spot - extensão com grande abundância e diversidade de espécies, habitats ou ecossistemas, com populações raras, ameaçadas ou endêmicas que carecem de proteção - pois é crítica para a saúde dos oceanos.


"Esse estudo do corredor migratório é muito importante, pois gera dados de ocupação de seis espécies de baleias e golfinhos que ocorrem dentro da Unidade de Conservação e entorno. Além disso, são levantados dados sobre interação entre os golfinhos e baleias com o lixo flutuante, o que representa um risco para a fauna marinha. Os resultados sobre ocorrência e fidelidade dos cetáceos nesta Unidade de Conservação e áreas adjacentes serão apresentados ao órgão gestor", detalha a Drª Lodi.


Vinicius Nora, analista de conservação do WWF-Brasil, explica que essas informações devem auxiliar em políticas públicas, de forma a diminuir a captura acidental, as colisões com embarcações e o vazamento de lixo plástico e outras formas de poluição, colaborando com a preservação das espécies. "O habitat marinho vem sofrendo de maneira crônica inúmeros impactos. Os dados da pesquisa corroboram a necessidade de olharmos atentamente e propor ações efetivas para a preservação da vida desses cetáceos, tão importantes do ponto de vista ecológico e para o engajamento da sociedade pela manutenção das unidades de conservação", afirma.

Desenvolvido desde 2004 pela Dra. Lodi, este acompanhamento é hoje a linha de pesquisa com a maior série temporal na região, contendo dados e imagens de seis espécies de cetáceos que ocorrem na região fluminense. O monitoramento é realizado por meio de saídas em barco para as ilhas do MONA Cagarras e entorno para atualização do catálogo fotográfico dos animais individualmente identificados através de marcas naturais; análise do histórico de avistagem e reavistagem para determinar a fidelidade de área, residência e movimentos. Esse trabalho permite a ampliação da análise espaço-temporal da ocorrência, através da plotagem de informações em mapas, possibilitando uma interpretação da sua distribuição, a indicação de áreas importantes para a conservação e a conexão de dados com outras pesquisas e projetos.


As fotografias são examinadas para comparação com as pré-existentes no catálogo de indivíduos identificados através de programas de computador especializados. Os dados das avistagens são georreferenciados para a elaboração de mapas as áreas preferencialmente utilizadas pelos cetáceos. Além disso, os pesquisadores fazem análise das ameaças - interações com redes de pesca, a captura acidental de cetáceos devido à intensa atividade de pesca industrial e artesanal na área costeira, o tráfego intenso dos navios que causam poluição acústica, e ainda o lixo flutuante.


O estudo desenvolvido pela equipe da Drª Liliane foi tema de artigo publicado recentemente na revista Marine Ecology Progress Series. O texto destacou a influência de variáveis ambientais e antropogênicas no uso do habitat por baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) e baleias-bryde (Balaenoptera brydei) na costa da cidade brasileira do Rio de Janeiro. Os autores usaram técnicas de SIG (Sistema de Informação Geográfica) para modelar o uso do habitat dessas espécies de cetáceos na orla urbana da cidade do Rio de Janeiro, incluindo os ecossistemas insulares (Lodi e colaboradores, em 2020). Ali, os autores destacaram que as baleias jubarte usam o entorno das Ilhas do MoNa Cagarras como um corredor azul quando desembarcam das águas frias da Antártica para migrar para as mais quentes no Nordeste do Brasil. Confira mais imagens no vídeo de Caio Salles https://drive.google.com/file/d/1TlxtW3EpOy4szXw1VqoBYY6xL1cJY22k/view

Sobre o Projeto Ilhas do Rio O Projeto Ilhas do Rio teve início em 2011 e tem como missão subsidiar órgãos tomadores de decisão com dados de pesquisas e monitoramentos de longo prazo, visando a proteção das ilhas da região fluminense, assim como conscientizar a sociedade sobre a importância da preservação ambiental e do uso sustentável de recursos, em especial do MONA Cagarras. É conduzido pelo Instituto Mar Adentro, com curadoria técnica do WWF-Brasil e patrocínio da Associação IEP e JGP.


Sobre o Instituto Mar Adentro O Instituto Mar Adentro é uma organização ambiental, fundada em 2005. Tem a missão de promover, participar e fomentar ações para geração e promoção do conhecimento sobre os ecossistemas aquáticos, visando garantir a integridade dos processos naturais, o equilíbrio ambiental e o benefício dos cidadãos de hoje e das futuras gerações. Realiza diversas iniciativas voltadas para a sustentabilidade, incluindo o Projeto Ilhas do Rio desde 2011.


Sobre o WWF-Brasil O WWF-Brasil é uma organização não-governamental brasileira e sem fins lucrativos que trabalha para mudar a atual trajetória de degradação ambiental e promover um futuro em que sociedade e natureza vivam em harmonia. Criada em 1996, atua em todo Brasil e integra a Rede WWF. Apoie nosso trabalho em wwf.org.br/doe